Breakfast at Tiffany

Descrições, opiniões, divagações, suposições, sensações, confusões, explosões

18

de
maio

Insanidade Nacional


Fui gerada em uma pensão próxima à Vila Belmiro. Era década de 70 e meu pai costumava arrastar minha mãe para assistir Pelé e companhia defendendo sua grande paixão, o Santo Futebol Clube.
Acho que desde aquela época me questiono sobre os motivos que levam as pessoas a perderem a noção do sensato quando se trata de futebol. Por que se tornam tão emocionais e irracionais quando seu time está em campo?
Em casa, o aparelho eletrônico mais usado sempre foi o radinho de pilha. Companheiro inseparável de meu pai, via o sendo levado para o banheiro na hora do banho, quando chegava do trabalho, para que pudesse ouvir as notícias do time. Via o colado em sua orelha em noites comuns, em jogos sem importância…Cara de poucos amigos, olhos perdidos no nada davam o sinal de que o Santos estava jogando. Minha mãe garante saber se o Santos está ganhando ou perdendo só de ouvir sua respiração…
Ele ouve rádios de Santos - detalhe, moramos no ABC - para saber de notícias quentes. Como ele consegue distinguir as notícias no meio do insuportável chiado gerado pela distância de transmissão ninguém sabe!
Assim foi e assim continua sendo. Mas o DNA problemático não pára por ai. Minha mãe, hoje bem mais controlada, é tão emocionalmente palmeirense que não consegue assistir os jogos. Fica só com sua angústia, fechada no quarto e atenta aos fogos para saber se saiu gol, esperando que alguém avise que já terminou. Nem sempre resiste. Quando o Palmeiras venceu a Libertadores, entrei no quarto para dar a boa notícia e a peguei já assistindo pela TV, e às lágrimas!!!
Meu irmão herdou o amor pelo Santos e o leva tão a sério quanto meu pai, porém bem mais descontrolado. Chuta a parede, se descabela, fala milhões de palavrões. É um laço forte entre os dois, que até causa certa inveja, uma espécie de pacto sagrado irredutível….
Ele frequenta assiduamente a Vila Belmiro e ultimamente está feliz, mas sofreu um bocado.
Na final do Campeonato Brasileiro de 2002, quando o peixe saiu da longa fila (hehehehe) quase infartou quando o Corinthians virou o jogo e dependia de apenas mais um gol para tirar o título do Santos. Saiu de casa feito um louco e ficou rodando a cidade de carro, carregando a pobre namorada - hoje esposa. Ao ouvir fogos pelo empate, jurou que o gol era do Timão e só depois que a namorada insistiu, ligou o rádio. Não resistiu, voou para a Imigrantes para seguir o ônibus do time até a baixada.
Antes do jogo, ele sutilmente expulsou eu e meu noivo na época - hoje marido - ambos corinthianos de casa: Sabe como é, corinthiano dá azar..
Recentemente, sem poder suportar o tetra campeonato conquistado em 2005 pelo Timão, afirma categoricamente que sua missão na Terra é torcer contra o time do Parque Sâo Jorge!
E tinha também meu avô paterno. São paulino doente, não perdia um jogo do seu ou de qualquer outro time. Adorava futebol e passava horas grudado no radinho e na frente da Tv para ver todos os programas esportivos. Caso jogassem São Raimundo e Vila Socó, para ele seria imperdível! Isso trouxe alguns probleminhas com minha vó e após insistentes pedidos, ele finalmente comprou um segundo aparelho de tv para que a coitada pudesse ver suas novelas e o Silvio Santos em paz.
No fim de sua vida, teve uma doença que tirou gradativamente sua lucidez e e para nós foi muito triste ver a indiferença com que passou a tratar o tema, pois simbolizava claramente o quanto ele estava fora do mundo. Durante seu velório, em 28 de dezembro de 1998, acontecia a final da Copa do Brasil daquele ano, e ao ouvir os rojões que comemoravam a vitória do Palmeiras pareceu uma estranha coincidência soando como homenagem a quem tanto apreciou o esporte mais popular do País. Acho que foi a primeira partida que ele acompanhou após anos de apatia…
Cresci no meio destes doidos e também tive momentos insanos. Entendo tecnicamente um pouco…sei diferenciar impedimento de escanteio e prefiro programas esportivos a femininos . Acabei corinthiana, por incrível que pareça, uma ovelha alvinegra!!! Já fui bem mais fanática, ultimamente ando mais controlada, mas não deixo de me entusiasmar e sofrer, claro, com nostro hermano Tevez e sua turma!!!
Meu marido, embora sem o DNA degenerado como o meu, também é maloqueiro e sofredor. Aliás, o Timão faz parte de nossa história. Nosso primeiro contato mais próximo foi para assitir um jogo do Corinthians na casa de uma amiga….Logo no início de namoro marcamos um encontro: domingo, no Morumbi, para assistir Corinthians e Portuguesa…Ele é todo poderos timão, filho de espanhol só podia dar nisto - mas a convivência é pacífica na família, embora ele odeie cada vez mais o Santos !!!
A lista de atos dramaticamente engraçados provocados pela paixão já presenciados é infinita e mereceria na verdade um livro. Amigo que faz o sinal da cruz ao passar em frente ao Parque São Jorge; outro que, em seu casamento, na hora do brinde, pediu a palavra para fazer uma prece e soltou solenemente: Salve o Corinthians, o campeão dos campeões. Eternamente dentro de nossos corações… e sem esquecer o vizinho corinthiano que quando adolescente chutava o carro verde de seu pai, o símbolo do inimigo….

Essas histórias são comuns e aposto que a maioria de nós já presenciou alguma insanidade parecida em sua família. Porque o futebol está arraigado em nossa cultura, despertando em vários lugares do mundo, uma paixão dificil de explicar. Acho que já está no inconsiente coletivo…passa de pai para filho e traz boas e más consequências. Basta lembrar de tantas vidas acabadas por estupidez, apenas porque não defendiam a mesma bandeira.
Para o torcedor, não adianta apelar para o racional e pensar que é apenas mais um esporte e que, ganhando ou perdendo, suas vidas continuarão como sempre. Soa como consolo simplista para torcedor derrotado na segunda-feira.
Uma cena em especial nunca me saiu da memória…
Seu João é um simpático e sorridente zelador de um prédio de uns amigos. Na final da Copa de 1998, entre Brasil e França, eu e meu marido assistíamos a final com eles, quando passados mais de 30 minutos do segundo tempo, com 2 x 0 para a França, decidimos ir embora para evitar a confusão que prometia se formar após a derrota inevitável. Descemos calados, embora sinceramente eu não torça para a seleção brasileira por diversos motivos, e na portaria encontramos seu João chorando.
- Não esquenta seu João, na próxima a gente leva - profetizou meu marido. Mas não adiantou muito. Foi tão triste…mas exemplificou exatamente o que significa uma simples partida de futebol.
Talvez, daqui há milhares de anos, as pessoas se perguntem por que durante os séculos XX e XXI e quem sabe quantos mais, multidões se reuniam em grandes arenas gramadas, grupos se aglomeravam nas ruas e em suas casas para assitir 22 homens correndo atrás de uma bola, tentando encaixá-la em três estacas de madeira rodeadas por uma rede. E o fato de uma parte torcer para um bando e outra para outro bando seja explicado por exames minuciosos em telas de plasma nos restos mortais dos crânios de fósseis deste período. E as crianças aprendam , assim como hoje estudamos hábitos de civilizações perdidas, que era motivo de grande orgulho ser um destes homens e que isto se tornou uma das poucas possibilidades de mobilidade social extrema nesta remota civilização.

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