31
de
janeiro
Sonhei

De todos os sonhos doidos e deliciosos que já tive, encontrar Carlos Drummond de Andrade foi o mais especial.
Tivemos uma longa conversa. O poeta me contou como elaborava seus poemas, o que o inspirava. Como um professor, me mostrava e explicava estrofes famosas. Calmo e sereno..exatamente como deve ter sido em vida.
Acordei em êxtase. Queria chacoalhar o Marido, contar o encontro, imortalizar aquele momento.
Justo eu, que não sou exatamente afccionada por poesia e jamais serei capaz de escrever duas duas linhas do estilo - pensei.
Estranhos desígnios do subconsciente. Mais tarde, pesquisando sobre C.D.A - que na verdade sempre foi um dos meus autores "queridinhos" pela figura discreta e consciente, por sua obra séria e por ter sido lido na infância na saudosa coleção Para Gostar de Ler - descobri uma ligação quase espiritual (seria se eu acreditasse em espíritos, almas e afins).
Carlos Drummond de Andrade foi um dos primeiros associados da entidade de proteção animal Suipa, praticamente um dos fundadores da ong. Isto nos idos da década de 40, quando a causa animal devia ser motivo de piada entre grande parte da sociedade (se ainda é hoje, imaginem há 70 anos…)
Vanguardismo de um poeta que não gastava seu tempo sentado no bar da praia, tomando cerveja e fazendo rima para chavecar a garota de ipanema. (Não seria mais fácil simplesmente chamar ela de gostosa e convidar para um chops??????).
Retomando….
Sonho bom que elevou a figura do velhinho com ar do avô que todos tivemos ao meu altar de personagens reais que merecem total e irrestrita idolatria.
Um dos meus preferidos
Balada do amor através das idades
Eu te gosto, você me gosta
desde tempos imemoriais.
Eu era grego, você troiana,
troiana mas não Helena.
Saí do cavalo de pau
para matar seu irmão.
Matei, brigamos, morremos.
Virei soldado romano,
perseguidor de cristãos.
Na porta da catatumba
encontrei-te novamente.
Mas quando vi você nua
caída na areia do circo
e o leão que vinha vindo,
dei um pulo desesperado
e o leão comeu nós dois.
Depois fui pirata mouro,
flagelo da Tripolitânia.
Toquei fogo na fragata
onde você se escondia
da fúria do meu bergantim.
Mas quando ia te pegar
e te fazer minha escrava,
você fez o sinal da cruz
e rasgou o peito a punhal…
Me suicidei também.
Depois (tempos mais amenos)
fui cortesão de Versailles,
espirituoso e devasso.
Você cismou de ser freira…
Pulei muro de convento
mas complicações políticas
nos levaram à guilhotina.
Hoje sou moço moderno,
remo, pulo, danço, boxo,
tenho dinheiro no banco.
Você é uma loura notável,
boxa, dança, pula, rema.
Seu pai é que não faz gosto.
Mas depois de mil peripécias,
eu, herói da Paramount,
te abraço, beijo e casamos.
Carlos Drummond de Andrade

