Breakfast at Tiffany

Descrições, opiniões, divagações, suposições, sensações, confusões, explosões

22

de
abril

A mídia, o povo, e o nojo

Não é de hoje que abomino qualquer tipo de reality show. Considero este tipo de aberração um perigoso jogo psicológico que expõe características humanas que deveríamos nos envegonhar - tanto de quem assiste, como de quem é assistido.

Os programas abriram uma porta que deveria ter se mantido fechada eternamente. Depois de todo tipo de exposição, invadir a privacidade alheia deixou de ser politicamente incorreto. Comenta-se sem o mínimo pudor sobre intrigas, traições. Torcer pela derrota, pela vergonha, pela humilhação pública deixou de ser degradante. O pior lado da humanidade foi exposto, e o público vibrou, aplaudiu. De Big Brothers a mães e pais incompetentes, todos querem opinar sobre a vida de outros.

E a ficção perdeu a graça. O sadismo exige um caso real, com sofrimento real, não fingido. Um assassinato supostamente cometido pelo próprio pai e pela figura maléfica da madrasta que aterroriza e faz misérias contra suas enteadas, então, é o prato cheio para um senso comum estúpido e uma mídia desprovida de ética.

O que tem sido visto no caso desta pobre menina Isabella é um circo de horrores onde mídia e população se complementam na exploração de uma tragédia grega.

Mentes acéfalas em geral acompanham o caso como um reality show. Escrevem teorias, passam horas se deliciando com cada detalhe da desgraça. Disfarçada de solidariedade, a doentia necessidade de tragédia humana atingiu o ápice. Como vampiros, absorvem cada mínimo resquício de sangue para que o subcosciente se traquilize por aquilo não ter ocorrido com sua família, por não terem sido eles os autores do ato.   

Seja quem for o culpado, o crime é brutal e deve ser punido. Isto é óbvio. O caso é absurdamente trágico sobre todos os ângulos. E remete a posições contraditórias da sociedade.

Primeiro há a hipocrisia de concentrar toda indgnação em um único ato, esquecendo-se das inúmeras crianças vítimas de violência em todos os níveis da sociedade - e das crianças que já nascem jogadas do sexto andar - sem chance de futuro algum.

Por outro lado,  reforça a ideologia da esquerda cega brasileira, que justifica os atos bárbaros cometidos por pobres e os qualifica como vítimas do sistema, classificando atos criminosos de membros da classe média ou rica como piores. Sob esta ótica, se um playboy filhinho de papai comete um crime, ele merece punição maior do que um Champinha da vida simplesmente porque ele teve uma vida melhor do que a da maioria. Portanto, um casal classe média deve ser mais execrado do que um psicopata nascido na favela. Afinal, "a casa dele é mais bonita que a minha…."

Isto é justo? Na minha ótica não. A punição e a indignação devem ser semelhantes.

 

Uma investigação realizada sob um clamor popular tão insano corre o risco de pecar por vários aspectos e dificultar a punição por ilegalidades gritantes. Tamanha pressão compromete qualquer tipo de análise.

Enquanto desocupados em geral se divertem no canaval da irracionalidade, oportunistas fazem trilha sonora para a tragédia. Políticos, delegados e promotores se deleitam pensando na próxima eleição e a mídia transforma a mãe da garota em celebridade - exatamente como nos reality shows. Padres promovem shows e contabilizam o crescimento de seu rebanho. 

Fantasiado e acenando para as câmeras, o povo já decretou o culpado e exige suas cabeças. Aldeões pegaram suas tochas e montaram a forca. Enquanto pedem justiça e o mancham o nome da vítima com gritos similares aos das torcidas no estádio de futebol, riem como se estivessem em uma festa, felizes por terem encontrado quem culpar por suas vidas tão medíocres.  

Discutir se a culpa de tudo isto é exclusivamente da mídia é como perguntar quem nasceu primeiro - o ovo ou a galinha. Desprovidos totalmente de ética, racionaldade e até dos conceitos básicos de apuração jornalística, os meio de comunicação respondem ao apetite humano por comoção.

Exercem papel importante, mas não determinante. Esquecem o profissionalismo, tornando notícia o que pela teoria mais básica do jornalismo não é notícia. Como sempre, se furtam do papel crítico e comemoram os pontos de audiência, os jornais e revistas vendidos, os acessos ao site.  

Pobre menina. Já lhe tiraram a vida. Agoram vendem algodão doce em cima de sua tragédia.

 

Antes de tomar pedrada - não estou defendendo os assassinos. Seja ou sejam que forem, devem ser punidos como estão sendo punidos a Richitofhen e seus comparsas. o Maniaco do Parque, etc, etc, etc e como deveria estar sendo punido o Champinha (não passando férias em uma instituição que mais parece uma casa de repouso).

Qualquer comentário ofensivo como tenho visto em blogs que emitiram opinião semelhante será apagado e o IP identificado e denunciado. Portanto, histéricos desocupados, vão assistir o Datena e mantenham distância.

Meu blog, minhas regras .

 

Isto não se aplica aos comentaristas costumeiros deste blog, todos sempre muito civilizados.

 

UP - Após escrever este post, blovagando por aí encontrei este artigo extremamente lúcido. O outro lado, aquele no qual não queremos nos colocar.

2 Comentários »

  1. Comentário por Natália — 23 de abril de 2008 (16:22)

    Oi Holly, tudo bom??
    Muito interessante seu post sobre essa “perigosa” cobertura da mídia. A situação realmente está como vc disse: “um circo de horrores onde mídia e população se complementam”. Achei um absurdo algumas pessoas tentarem invadir o prédio onde moram os pais da madrasta da Isabella…escrevendo e colando cartazes nos muros. O povo está maluco, se esquecem que lá também moram pessoas que não tem nada a ver com o caso.
    Não aguento mais ligar a TV e ver o caso da menina e todo aquele sensionalismo, até mudo de canal qdo vejo
    É isso aí!
    Beijão

  2. Comentário por Lile — 23 de abril de 2008 (21:32)

    Holly!
    Disse tudo!
    Curioso que postei sobre o mesmo assunto, com uma dose de indignação.
    Bjo

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