26
de
maio
De que lado você está?
Apesar de tudo, ainda me choco com algumas coisas.
Como declarações deste naipe:
No programa Jon Stewart Global Edition, apresentado no Brasil pela Sony, uma senhora da Carolina do Sul - destas que de tanto comer bacon acaba ficando parecida com uma porca - explicava porque não vota em Barack Obama, argumentando que "ele é de outra raça, uma raça que tivemos muitos conflitos…" !!!!!
Me choca que existam pessoas com este pensamento.
Mas seja qual for o motivo deste tipo de pensamento ainda existir em parte da sociedade norte-americana, pode-se acusá-lo de tudo, menos de hipocrisia.
A senhora do engenho é racista. E ponto.
Me questiono se muito das posturas encontradas por aqui não são mais prejudiciais.
Minha mãe e eu somos morenas. Bem morenas. Descendemos, entre outros ingredientes da salada étnica, de índios. Aqueles que estavam por aqui antes de tudo e tiveram sua cultura massacrada pelos europeus.
Diz a lenda que o avô português de meu avô paterno, caçou minha tataravó… Civilizado pra caramba o portuga, não…
Mas o que interessa é que herdamos os cabelos negros e lisos, olhos negros, pele morena.
Minha avó materna era filha de italianos. Pele clara, cabelos castanhos, olhos verdes. Diante da diferença física entre mãe e filha, ela costumava ser questionada se tinha adotado a pequena moreninha…
Com incrível presença de espírito, a mulher que era independente muito antes do feminismo, respondia que não, que seu marido era negro mesmo. E curtia com a cara horrorizada das inquisidoras.
Mais velha, minha mãe foi confundida com empregada da casa da família branquérrima européia por um convidado, que refletiu: "é moreninha, só pode ser serviçal". Podre, muito podre.
Mas isto ocorreu em outras épocas, antes de racismo ser crime.
Hoje é preciso tomar cuidado, então o racismo é velado e produz pérolas.
Uma amiga confidenciou certa vez que sua irmã tinha namorado um negro. E aliviada pelo fim da relação, explicou: "não sou racista, mas quando acontece na sua família é diferente" .
Outro caso: uma conhecida contava episódios racistas, dizendo-se contra preconceito, mas justificava o fato do neto ser mulato: "todo mundo tem um pé na senzala, né…"
Sem querer, foi uma declaração de alto teor racista. E talvez, ela não tenha percebido o que está implícito nesta justificativa. Porque afinal, não é preciso justificar nada. Não acredito que tenha tido a intenção ofensiva, mas mostra como existe uma confusão filosófica, uma dificuldade de se posicionar no Brasil.
Tenho a impressão que lá na terra da águia e mais facil saber quem é mocinho e quem é bandido, ou de que lado você está.
Democratas são a favor de pesquisas com celulas tronco. Republicanos são contra. Tem que não veja problema em um negro ser presidente. E quem é contra, simplesmente é contra. E por mais arcaico, imoral, condenável que seja, não disfarça que não gosta de negros.
Claro que seres humanos são complexos e visões maniqueístas são facilmente confusas, mas sinto ser extremamente difícil saber de lado estou, em quem votar nas próximas eleições, por exemplo. Quem é do bem, que é do mal?
Até o Lula ser eleito, fui esquerdista a vida toda.
Depois, entrei em estado vegetatitivo. Eu não podia aceitar o que estava acontecendo. Será que fui tão ingênua? Fui traída? Não há diferença entre direita e esquerda? Tudo se resumia à assistencialismo populista?
É difícil se posicionar com uma esquerda tão burra como a brasileira, com uma direita tão retrógrada e com um centro tão…como dizer…tão centro.
Não posso compartilhar os interesses de quem defende bandido, de quem acredita que os fins justificam os meios. Mas não consigo estar ao lado de quem não tem pudor ao repetir o slogan "rouba, mas faz".
Não quero mais cair na lorota dos Zés Dirceus da vida, mas não consigo achar normal usar o fato de uma ministra negra agir sem ética para tentar colocar toda uma raça no caldeirão da sujeira, deixando nas entrelinhas a mensagem de "ta vendo, eu avisei que eles não deveriam ter cargos no alto escalão".
Não dá. Não dá para ser contra Chaves e ignorar a ditadura chinesa, se omitir frente ao que ocorre no Tibete.
Não dá para aceitar posturas tão contraditórias.
Enquanto a esquerda parece se afundar cada vez mais na lama, você ouve discursos arcaicos como o li por aí sobre o conflito entre índios e agricultores em Roraima. "Se não sabem ser civilizados que voltem para a selva", escreveu alguém sobre os índios.
Peraí….Primeiro, que selva? Segundo: tá esquecendo que estudantes civilizados queimaram um índio por diversão e que eu saiba estão por aí, soltos e ocupando cargos públicos? Quem deve voltar para a selva, amigo branco cabeça pequena? (E leia este lindo artigo)
Não é contraditório tomar partido tão definido contra os índios em uma situação altamente manipulada por interesses de terceiros, quartos e quintos e achar normal a comoção popular que pedia literalmente as cabeças dos Nardoni?
São só exemplos de posturas filosóficas emaranhadas, confundidas, tortas, de uma geração um tanto desinformada e sem o mínimo senso crítico, como a que desponta. Não sabe que caminho seguir, não vê separações éticas claras, aquela linha tênue que se você ultrapassa, caiu do lado errado.
Preferia ter que escolher entre democratas e republicanos. Preferia ter apenas que me posicionar sobre a invasão do Iraque, as pesquisas embrionárias, o criacionismo e a teoria da evolução.
E eu votaria em Obama. Com total convicção.













